Design, pensamento cartesiano e pensamento sistêmico

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Ao tentar analisar o mundo em que vivemos, buscando explicar os fenômenos que nos cercam, somos naturalmente confrontados com o desafio de organizar o pensamento em torno de definições que sejam aceitáveis e minimamente compreensíveis. Assim, ao longo dos tempos, as ciências de observação do mundo como a física, a química, a economia, a política, a psicologia e tantas outras, tem tentado materializar estas definições através de leis e princípios que expliquem o meio em que vivemos e nossa relação com ele. Nesse processo, acabamos por adotar uma visão de mundo que é largamente baseada no modelo de ciência e de saber científico que vimos evoluir nos séculos XIX e XX: para analisar um fenômeno é necessário decompô-lo em partes menores e, então, estudá-las a fundo, criando modelos matemáticos ou lógicos que resolvam as questões observadas. Este modo de ver o mundo pode ser entendido como o pensamento cartesiano que, de acordo com Capra (1996) acreditava que em qualquer sistema complexo o comportamento do todo podia ser analisado em termos das propriedades de suas partes. É inegável que este modo de pensar e organizar o pensamento tenha contribuído e continue a contribuir para os avanços em todos os setores de desenvolvimento humano: a medicina, a educação formal e a engenharia que temos hoje são apenas três exemplos desse desenvolvimento. Ao dividir o mundo para estudá-lo, conseguimos crescer em entendimento mas, ao mesmo tempo, acabamos por deixar de observar o todo que compõe as partes. Este novo modo de ciência, que avalia o todo como a chave para o entendimento, pode ser definido como pensamento sistêmico e, ainda de acordo com Capra (1996), “A ciência sistêmica mostra que os sistemas vivos não podem ser compreendidos por meio da análise. As propriedades das partes não são propriedades intrínsecas, mas só podem ser entendidas dentro do contexto do todo maior”. Entender estas diferentes visões do mundo nos leva a questionar a posição do designer enquanto produtor de bens de consumo no ambiente em que vive.

Talvez o maior impacto da criação de bens de consumo, pelos designers, sejam as alterações no ambiente natural do planeta. Em ritmo crescente desde o século XIX, esta produção tem consequências já observadas nos dias de hoje.

O desenvolvimento foi acelerado com a revolução industrial e com o crescimento dos conhecimentos científicos e tecnológicos, sendo uma conseqüência natural do crescimento econômico. Este, por sua vez, ocasiona algumas transformações que afetavam diretamente o meio ambiente, trazendo riscos para todos os seres, inclusive, a própria vida humana. (SILVA, 2009)

Esta “educação” ambiental através da compreensão dos impactos causados à natureza por consequência de nossas ações é uma forma de adicionar pensamento sistêmico a um modelo basicamente cartesiano. Ao considerar que os recursos naturais não estarão disponíveis eternamente e que nosso ritmo de produção e consumo nos aproxima cada vez mais da escassez, vemos no design sustentável a possibilidade de reeducação deste ritmo e de nossas práticas. Isto significa que “As análises do Ciclo de Vida de Produto realizadas desde a extração da matéria prima até o descarte, passando por todas as etapas de manufatura, transporte, etc., são atualmente essenciais para a busca de soluções” (MOURÃO, 2010) e, ainda, que

Por definição, um projeto de ecodesign deve contemplar os aspectos ambientais em todos os estágios do desenvolvimento de um produto. Deve procurar reduzir o impacto ambiental durante todas as fases do seu ciclo de vida, o que significa reduzir gastos com matérias-primas, energia e lixo, desde sua fabricação até seu descarte (MANZINI E VEZZOLI apud MOURÃO, 2010).

No mundo cartesiano, uma visão reducionista dos fatos nos faz sempre enxergar que temos o domínio e o controle sobre o campo analisado. Dessa maneira, de acordo com Capra (1996) passamos a imaginar que temos conhecimento completo sobre as variáveis que regulam os fenômenos de qualquer natureza quando, em verdade, temos, no máximo, uma aproximação mais ou menos precisa do que pretendemos analisar. A noção de certeza dos fatos é traço típico dos sistemas cartesianos, que desprezam incertezas e aproximações para se satisfazerem com um resultado exato. Este modo de pensar nos distancia do meio ambiente em que vivemos e precisamos urgentemente passar a nos enxergar como parte de uma teia maior de relacionamentos, observando os princípios de interdependência, auto-regulação, parceria e flexibilidade que estes sistemas oferecem.

É crucial para a sobrevivência da profissão do designer que passemos a enxergar o mundo como esta grande rede interconectada, proposta pelo pensamento sistêmico. Se os recursos são finitos, está claro que não poderemos produzir para sempre se não permitirmos que estes recursos se renovem de alguma maneira. Mourão et al (2010) nos traz diversos exemplos de produção através do reaproveitamento de resíduos, além de evidenciar que a educação do designer nos campos da responsabilidade social e ambiental é essencial para a formação de uma massa produtora crítica e sustentável. E, sobre esta mudança, torna-se evidente que

Não é possível atender às novas perspectivas sem considerarmos a cultura, os recursos naturais, a responsabilidade social e a Educação Ambiental. Faz-se necessário que o ensino de design englobe novas metodologias adequadas a esta aprendizagem. Deve incluir a capacidade de reflexão sobre significados e relações entre causa e efeito. As reflexões ocorrem no individual e no coletivo, simultaneamente, dissolvendo assimetrias de pensamentos, gerando novas abordagens do conhecimento. (MOURÃO, 2010)

É papel do designer educar-se para que, então, possa educar através de seus produtos e serviços.

Referências

SILVA, G. G.; BRAUN, J. R. R.; GOMÉZ, L. S. R. O Design Gráfico e o Desenvolvimento Sustentável.

MOURÃO, N. M.; LANA, S. L. B.; KRUCKEN, L.; ENGLER, R. C. Educação Ambiental nos caminhos do Design. In: 9º Congresso de Pesquisa e Desenvolvimento em Design. São Paulo, 2010.

CAPRA, Fritjof. A teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. São
Paulo: Ed. Cultrix, 1997.

  • Filippe Luy

    Olá gostaria de parabenizar esta eximia explicação da relação design e os métodos cartesiano e sistêmico, a um tempo busco esta explicação, mas ainda não havia encontrado nenhuma tão interessante e plausível quanto esta,parabéns!

    • Marcos Accioly

      Obrigado, Filippe. Foi durante uma disciplina do curso de Desenho Industrial da Ufes que escrevi o texto.

  • Wilson Munhoz

    Marcos, tb quero deixar meus parabéns pela forma que você apresentou o assunto. Singular e esclarecedor.