Design sustentável: primeiras ideias

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O mundo mudou e o design precisa também mudar. Precisamos compreender os produtos como pertencentes a um ecossistema sócio-econômico-ambiental maior que o domínio de compra e venda. Muniz e Figueredo (2009) deixa claro que é necessário evoluir a visão de competitividade organizacional (centrada em recursos e resultados) para uma visão sistêmica que considere uma cadeia de valor, rede e nação. Há algum tempo já denominamos esta forma de pensar de sustentabilidade e o profissional de design, responsável pela inserção de novos produtos e serviços no mundo, precisa estar atento e aberto a este novo entendimento.

Considerando-se esta perspectiva, especialmente o incentivo ao consumo excessivo precisa ser repensado. O design, profissão ainda muito conectada à estética e ao consumo exagerado, precisa reavaliar suas práticas através de seus profissionais e do que estes oferecem ao mundo. Nesse contexto sistêmico, o projetista deve levar em consideração a sustentabilidade ambiental, visando minimizar os impactos de suas práticas no mundo em que vive. Este tipo de responsabilidade pode contribuir, inclusive, para a imagem das empresas que apostam em iniciativas neste sentido. A demonstração, mesmo que ainda de fundo comercial, de preocupação com questões ambientais que interessam a todos, é marca fundamental da qualidade de uma empresa nos dias de hoje (Gomes et al, 2009).

Na abordagem sistêmica do design, é necessário encarar tudo que é projetado como um serviço oferecido, ao mesmo tempo, ao comércio e ao mundo como um todo, considerando-se o ambiente e o ciclo de vida desses projetos e produtos. Ao investigar a sociedade em que vive, observando como otimizar processos já existentes através de tecnologias diversas, o designer desvencilha-se de uma relação puramente top-down e passa a fomentar “comunidades criativas”, sendo parte dessas comunidades em relações bottom-up ou peer-to-peer (Muniz e Figueredo, 2009). É evidente que, em primeiro momento, essa abordagem pode parecer utópica, mas o processo deve acontecer gradualmente, até que esta prática seja parte integrante de nossas produções.

Na tentativa de estabelecer parâmetros para uma gestão centrada no design que leve em consideração os aspectos de uma visão sistêmica da produção de bens e serviços, podemos compreender sua atuação nos três níveis tradicionais (operacional, tático e estratégico) e relacioná-los com oportunidades para a implementação do life cycle design (LCD). Operacionalmente, tratamos do ato de “fazer”, lidando com aspectos de marketing, produção e comunicação e, neste nível, podemos repensar o uso de materiais e o descarte consciente de resíduos. No campo tático, concentramo-nos na estrutura, gestão da tecnologia e da inovação, coordenando processos e regulando “como fazer” tendo, nesta etapa, a possibilidade de reavaliar a extensão da vida do produto e a facilidade de sua desmontagem, bem como de analisar a logística reversa do produto. Já no nível estratégico temos um papel transformador, lidando com “o que fazer” e delineando a estratégia de produtos e serviços e a gestão do conhecimento envolvida com os mesmos: este nível, no LCD, deve englobar toda a cultura de produção para aquele produto ou serviço, orientando o processo nos caminhos da sustentabilidade (Gomes et al, 2009). Os autores tentaram relacionar casos que corroborassem a estrutura sugerida de divisão dos níveis de gestão do design, mas a falta de detalhamento dos processos prejudicou uma análise mais profunda.

Sem dúvida, a análise do ciclo de vida de um produto é uma técnica de fundamental importância para a avaliação dos impactos de um determinado produto em suas variadas etapas de produção, comercialização e descarte. Neves et al (2010) questionam a visão tradicional de análise do ciclo de vida, definindo-a como limitada e simplista. Ao sugerirem a utilização de uma visão mais complexa, complementada pela inserção da visão de sistemas adaptativos complexos (SAC), os autores incrementam as seis etapas-padrão usualmente apontadas nas ACV. Assim, as seis etapas: aquisição de matérias-primas, fabricação, utilização (reutilização, manutenção), reciclagem (gestão do resíduo), entradas e saídas, seriam incrementadas pela visão de SAC, que traz nove outros níveis de análise para cada etapa-padrão. Embora muito mais complexa, esta forma de compreensão dá ao projetista um instrumento muito mais eficaz na análise do ciclo de vida de um produto a ser desenvolvido.

Inserido neste contexto, o designer gráfico conta com muitas maneiras de minimizar os impactos provocados e de considerar-se inserido na preocupação do ciclo de vida dos produtos. Conhecer profundamente os materiais a serem usados para qualquer produção é requisito fundamental para habilitar o profissional a fazer escolhas conscientes e significativas rumo à sustentabilidade. Nesse sentido, podemos apontar oportunidades de adesão a esta visão com:

  1. a utilização de tintas e compostos baseados em materiais orgânicos e biodegradáveis, que geram menos impacto em sua produção e reciclagem;
  2. a preferência por fornecedores locais de materiais, diminuindo todos os custos de logística;
  3. a consciência do descarte e sua possível facilitação desde o momento projetual;
  4. a otimização da utilização do suporte (que em grande parte é papel), sugerindo ao cliente medidas que já contemplem essa redução de gastos de material;
  5. a conscientização dos consumidores quanto a necessidade de repensar as práticas puramente comerciais e estéticas, dando lugar a uma consciência ambiental (de todo o sistema envolvido), mesmo que ainda privilegiem estas dimensões;
  6. a preferência por materiais reutilizados e reutilizáveis;
  7. a preferência por materiais com menor impacto ambiental para sua produção e obtenção;
  8. o projeto de materiais que sejam duráveis ou facilmente descartáveis, dependendo do caso específico, mas evitando a falsa ideia de escolher “qualquer material disponível”;
  9. a busca constante de novas práticas e formas de produzir e materializar ideias, renovando as atitudes para práticas cada vez menos destrutivas;
  10. a produção sob demanda ao invés de produzir em larga escala.

Referências

MUNIZ, M. O.; FIGUEREDO, L. F. G. Por uma abordagem sistêmica do design. In: Anais do 5º Congresso Internacional de Pesquisa em Design. Bauru, 2009.

GOMES, N. S.; PRADO, G. C.; ROSA, I. M.; CHAVES, L. I. Gestão do Design e o Design Sustentável. In: Anais do 9º Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design. São Paulo, 2010.

NEVES, C. A. A.; SELIG, P. M.; CAMPOS, L. M. S. A Análise do Ciclo de Vida do Produto sob a ótica dos Sistemas Adaptativos Complexos: uma correlação. In: Anais do 9º Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design. São Paulo, 2010.