Ser humano

Um amigo e eu divagamos durante algumas horas um dia desses sobre a excentricidade da vida e o modo que somos e vivemos nos dias de hoje. Percebemos, após muita racionalização, que estamos exatamente contra o curso natural da vida humana. Estamos vivendo às avessas.

Desde cedo, quando ainda nem temos capacidade de expressar nossas conclusões, aprendemos sobre nosso modo de pensar e sobre como utilizar a mente para definir e classificar tudo que existe. Somos categoricamente adestrados a classificar objetos, seres vivos, sensações. Passamos a nos referir a todas as coisas a partir de definições linguísticas absurdamente limitadas que, associadas a alguma sensação talvez nunca experimentada, tentam explicitar o objeto em questão. Carro. Casa. Sol. Computador. Mulher. Homem. É extremamente simples o que fazemos: tentamos ignorar a complexidade emocional associada a objetos, cores, situações, animais e tudo mais que existe, para darmos lugar a uma palavra que supostamente define o que queremos expressar. E, no entanto, nos esquecemos de que isto não é possível. A experiência é pessoal. Não há como fugir.

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No fundo, o que você vê quando vê?

Testemos isto em um exercício muito simples e direto. Imaginemos uma flor. Eu imagino a minha e você imagina a sua. Imaginou? Branca, miolo amarelo, do tipo margarida, bonita e com gotículas de água que a fazem parecer muito limpa e refrescada. Não? Bem provável que não. Esta é a minha flor. Não existe uma flor padrão. Cada um possui a sua flor mental. A flor não é simplesmente algo físico e externo, mas um conjunto de características pessoais a respeito de suas formas, cores, cheiros e impressões, que vão muito além de um agrupamento de letras. E aí está nossa dificuldade. Observamos o mundo tão tecnicamente que temos dificuldade em experimentá-lo. Sim! Experimentá-lo. A vida não é uma repetição cíclica de algo que aconteceu ontem e no dia antes de ontem. É pois, em si, uma sucessão de experiências particulares traduzidas por nossos órgãos dos sentidos a cada instante.

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Sua flor

No entanto, não vivemos experimentando tudo conscientemente a todo momento. Levando-nos a um extremo totalmente sensorial, ficaríamos tão absorvidos com todos os estímulos que não seríamos capazes de evoluir científica e tecnologicamente. Estaríamos tão absortos em sensações maravilhosas com relação a tudo o que existe a cada segundo que não racionalizaríamos nada. Certamente este extremo também não agradaria. Assim, se faz necessário encontrar um equilíbrio, um balanço natural entre racionalização e sensação, que nos deixe absorver o mundo sabiamente e ao mesmo tempo nos faça tentar compreendê-lo ao buscar explicações ou apropriar definições para os acontecimentos. Somos seres de linguagem e não devemos lutar contra isto. Mas também somos seres de sensação, dotados de receptores poderosos e capazes de nos proporcionar experiências únicas a cada instante. Sejamos, então, verdadeiramente os dois e aproveitemos por completo a maravilhosa experiência de Ser Humano.

P.S.: Este texto eu escrevi em março de 2007. Não me recordo quem era o amigo e nem qual o contexto. 

Créditos

Foto de v2osk em Unsplash; Photo by Andrew Small on Unsplash

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