Foi bom?

Ela chegou com aquele brilho. Você conhece o brilho — não é da pele, é de trás dos olhos, um negócio que a pessoa carrega quando o mundo, por umas horas, resolveu ser generoso com ela. Largou a bolsa na cadeira, trouxe o friozinho da rua na roupa, tirou o tênis falando, falando, e do meio da fala saiu de mim, sem eu autorizar: “e aí, foi bom?”

O susto não foi a pergunta. Foi que eu queria saber.

Não era a pergunta-armadilha, aquela que a gente faz já medindo a cara do outro pra calcular quanto vai doer. Era pergunta de verdade, dessas que você faz pro amigo que voltou de viagem. Eu queria mesmo saber como tinha sido pra ela e, no fundo, queria que tivesse sido bom. Me ouvi querendo e levei um susto, não reconheci de primeira a minha própria voz.

Porque tem uma escada aqui que ninguém ensina a subir e eu vivia achando que ela só tinha dois degraus.

O primeiro é aguentar. Você fecha a cara pra dentro, conta até dez e tenta não estragar a noite dela (e pode ser que ainda se ache um herói por ter feito o que é o mínimo a se fazer). O segundo é deixar, sem drama e sem medalha, do jeito que se deixa o sol entrar pela janela de manhã. Esses dois eu já manjava. O que me pegou desprevenido foi o terceiro, que apareceu sozinho na cozinha numa terça à noite: gostar que ela esteja feliz. Não apesar de onde ela esteve. Justamente por isso.

Dá medo, porque parece que não sobra canto pra mim. Se a alegria dela coube em outra pessoa, eu sirvo pra quê? Mas essa é a velha aritmética de saldo zero metendo a colher — a que jura que amor é vaga de estacionamento: ocuparam a sua, você roda a noite procurando onde parar.

Só que eu vi o brilho e o brilho não me tirou nada. Entrou inteiro pela porta junto com ela… sobrou brilho pra mim também! A felicidade dela não veio descontada da minha. Era mais casa. Não menos.

Não juro que subo esse degrau de novo amanhã. Posso escorregar: num dia cansado, o aguentar volta a se disfarçar de heroísmo. Escada não é coisa de uma vez só.

Mas hoje eu perguntei “foi bom?” e esperei pelo melhor.